Inteligência Competitiva e a Doença do pensamento – David Bohn

“A tarefa não é tanto ver o que ninguém tinha visto, mas pensar o que ninguém pensou a respeito do que todo mundo vê”.
Arthur Schopenhauer (1788-1860)

Bem, está frase de Schopenhauer ilustra em muito as aventuras da Inteligência Competitiva neste universo social complexo, que vislumbrou a emergência e o eclipse da razão como fonte exclusiva de produção de verdades, e nos impõe como questão do ordem a necessidade de se buscar respostas amplificadas, quânticas. Se pensarmos, digo enquanto membro de uma organização (homem organizacional), de maneira puramente racional, incorremos ao risco de nos tornarmos perigosamente previsíveis e cometeremos uma das falhas mais crassas possíveis, trabalharmos apenas pela e para a reprodução do universo vivido. Francisco Goya (1746-1828), famoso pintor espanhol, em meados do século XXVIII, ponderou, numa gravura da obra “Os caprichos” (1799), que “O sonho da razão produz monstros”. Sim, pois, a razão cega a si própria, como qualquer instância institucional humana, tanto quanto a fé produziu/produz atrocidades diante de sua verdade absoluta. Aristóteles e a justa medida se faz necessário, mas este não é o foco principal desta reflexão.

Estamos imersos num caldo social em processo avançado de decomposição que o físico estadunidense David Bohn chamou de “doença do pensamento”. Os principais sintomas são: (a) imediatismo; (b) superficialidade; (c) simplismo. A repetição deste modelo mental (linear-aristolélico-cartesiano-newtoniano-binário) por gerações, contribuiu com o avanço de diversas áreas do conhecimento, mas a sua profusão à nível popular abalou os alicerces da civilização (conceito de “banalização do mal” – Hannah Arendt – 1906-1975). Este modelo mental é caracterizado pela dicotomia eu/nós e eles (princípio de identidade e terceiro excluído) – para que alguém ganhe, alguém tem que perder; ou vendedores ou perdedores; ou incluídos ou excluídos.

Num nível de pensamento banalizador tendemos a crer que toda ação tem uma reação, porém, o que não refletimos é que a reação pode não ser proporcional à ação primeira, e o que consideramos de ação primeira/ocasional, é decorrência de uma série infinita de ações incondicionais, melhor, contingenciais.

A simplificação exponencial multiplicou as sessões de livros (bulleted advices) de auto-ajuda, passo-a-passos e receitas/manuais do que fazer antes de morrer, como se nossa existência para ser plena houvesse a necessidade de check lists e demais unidades tensionadas de verdades sintéticas. Nosso progresso no processo de do tornar-se humano não acompanhou nosso progresso tecnológico. Há um descolamento destes esferas e a multiplicação do sentimento solidão e esquizofrenia  Na busca por alçar ao nível olimpiano (Edgar Morin) e na afirmação da identidade frente ao processo de massificação, acabamos por contraditoriamente afirmá-lo. Nossa ação afirma a reação. O Prof. Humberto Mariotti aponta a existência de um pensamento unidimensional, onde “em nossa cultura, a maioria das pessoas tem imensa dificuldade de fazer conexões, pensar fora do contexto imediato de espaço e tempo, extrapolar. Se não houver correlações imediatas e diretas entre as coisas e as circunstâncias,  elas se convencem de que umas nada têm a ver com as outras. Este fenômeno produz outro: a propensão a classificar como ‘teórico’ tudo o que não seja estritamente operacional. Precisamos portanto, de um modo de pensar que leve as pessoas a ampliar sua compreensão de mundo e as faça entender que as teorias geram práticas e estas, por sua vez, realimentam as teorias. Sem teorias não há práticas e vice-versa”.

A ciência, frente à fragmentação de sua própria essência, criou os mecanismos para a emergência da visão de conjunto. Temos que ter em mente que a emergência de um novo modelo de pensamento, não necessariamente em oposição ao anterior, mas complementar, não passou a existir agora, mas que apenas ganhou evidência frente ao esgotamento do modelo anterior. Ou seja, a teorização de uma forma de pensamento complexo já existia há séculos, como nos elucida a reflexão do imperador romano Marco Aurélio (121-180 d.C.), na Obra Meditações: “Considera sempre que o Universo é um organismo vivo, que tem uma única substância e uma única alma; que todas as coisas estão submetidas a uma só percepção deste todo; que tudo é movido por um único impulso e tudo toma parte em tudo o que acontece. E repara quão intrincada e complexa é essa trama”.

É necessário refletir sobre a o papel da Inteligência Competitiva neste processo. O sistema econômico (economia de mercado) que vivemos é causa e resultado, processo dialético e ambivalente, desta patologia apontado por Bohn. As políticas organizacionais, a mídia, as instituições de formação, com raras exceções tendem a repetir e perpetuar o dano. Se faz necessária uma área de IC para transcender ou para reproduzir de forma ampliada este estágio patológico?

Se fizermos um exercício de auto-crítica, a necessidade de existência uma área de IC é a evidência de que a especialização vertical das atividades econômicas criou uma limitação ao seu próprio desenvolvimento (seja ele frente à fatores internos ou externos – competição) e se fez necessária uma área de ruminação crítica, reflexo e fruto do processo em curso.

É necessário ter em mente que o processo em voga é altamente complexo, e que este vulgar exercício que tentei desenvolver é insuficiente. O que é importante é o exercício do pensamento, não existem certezas e nem muito menos respostas imutáveis. Devemos nos atentar ao processo e seus possíveis desdobramentos diante das mudanças em curso, em velocidade cada vez mais intensa. Gostaria de deixar registrado meu agradecimento especial ao Prof. Dr. Humberto Mariotti, pois esta reflexão é fruto direto de sua obra “Pensamento Complexo – suas aplicações à liderança, a aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável”.

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1 comment

  1. Lucindo Bittencourt

    Parabéns pelo texto Luis!

    Importante a reflexão sobre o estado patológico do pensamento. Será que ainda poderemos fazer alguma coisa mudar este rota?
    O exercício da reflexao é um passo nesta direção.