Modificabilidade Cognitiva Estrutural e IC: aproximações

Na postagem do mês anterior prometi, pós-Metanóia, tentar abrir uma ponte entre o teórico Reuven Feuerstein, psicólogo, criador, dentre outras, da Teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural. Bem, alguns pressupostos básicos para a discussão: Inteligência – é dialeticamente Una e Múltipla. É formada por uma hierarquia de processos cognitivos, no qual cada nível é parte de uma estrutura superior, formada por componentes interdependentes. O sistema total é auto regulado e aberto a uma complexidade crescente e inovadora. Não está dada desde o nascimento, se constitui mediante a atividade do sujeito. É Una, pois é um sistema hierarquizado de processos e estratégias cognitivas, uma dimensão geral de desenvolvimento de estruturas, um fator abstrato e relacionável. É Múltipla, pois é uma variedade de componentes, estruturas sucessivas e dimensões interdependentes devidas à interdependência da interação entre a gerência, a organização cerebral e a diversidade de vias de desenvolvimento dos distintos sujeitos e grupos. É indiscutível que a inteligência tem um substrato genético – muitas síndromes hereditárias são catalogadas pela medicina e afetam indiscutivelmente os processos cognitivos.

Segundo Sônia Fuentes, em Desarrollo de la Inteligencia, “se estima que a hereditariedade flutue ao redor de 50%. As influências do ambiente são consideráveis. A Inteligência pode modificar-se, se as circunstâncias se alterarem. Parece indiscutível que a Inteligência baseada na genética depende da efetiva interação da atividade do sujeito no seu ambiente”. Desta forma o Ambiente age no desenvolvimento do sujeito, afetando-o de diversas formas. Nos estudos da Psicologia no geral, foram aplicados a contextos de desenvolvimento infantil, tento aqui expandir estes conceitos para o mundo corporativo. No geral podemos simplificar apontando que existem basicamente dois ambientes de aprendizagem, o Ambiente Passivo Aceitante e o Ativo Modificante.

Nota: pressupor uma área de Inteligência numa organização é, de certa forma, dotar o inanimado (relações sociais), de uma forma orgânica/antropológica, o que no geral, pode gerar um clima de distanciamento das demais áreas da empresa – pois analogicamente, se existe uma área de inteligência, é um pressuposto básico, que existam áreas que não a possuem, mas não podemos deixar que as demais áreas percebam desta forma, uma vez que a tradição do nome está ligada ao Alto Comando Militar. A IC deve ser vista como geradora de conhecimentos, e estar sempre receptiva a novas idéias, dinamizando a empresa e chamando todos à ação, visando o desenvolvimento coletivo – criação de Ambientes Ativos Modificantes.

Ambiente Passivo Aceitante – As empresas integrantes deste grupo aceitam que seus colaboradores ajam de maneira resignada, superprotegendo e evitando situações desafiadoras, pois imaginam que o sujeito é incapaz. Este ambiente resulta em colaboradores inseguros, dependentes, com baixa auto-estima, que evite frustrações, não perseverante, em resumo, que imaginem a si mesmos como atores passivos em suas próprias existências.

Ambiente Ativo Modificante – São ambientes estimulantes, desafiadores, geradores de frustrações pontuais, pois o sujeito está lidando com o desconhecido, e são ensinados a superá-las. É chamado à resolver problemas. Oferecem a possibilidade de ser cada vez mais autônomo e independente. Estimulam o que o sujeito se atreva a tomar as rédeas de sua vida.

O importante é que uma empresa para gerar um ciclo virtuoso de crescimento, multidimensional e fluido, torne-se um Ambiente Ativo Modificante. De acordo com Feuerstein, este processo ocorre quando há a presença de um mediador que possibilite a criação de situações desafiadoras, até que o indivíduo possa torna-se autônomo. Sônia Fuentes aponta que “[…] o mediador desempenha um papel fundamental na seleção, organização e transmissão de certos estímulos provenientes do exterior, facilitando a sua compreensão, interpretação e utilização por parte do sujeito”.

Dois princípios regem este processo, Intencionalidade e Reciprocidade, ou seja, uma interação intencionada e uma reciprocidade planejada, visando despertar no sujeito o interesse em si e que conheça a importância e a finalidade, o objetivo e a metodologia. A forma de se chegar a pontuar o nível de desenvolvimento do sujeito é através de um Mapa Cognitivo – um modelo de análise do ato mental, que permite conceitualizar a relação entre as características de uma tarefa e o rendimento do sujeito. A complexidade da resposta expressa a ação mental que se está realizando, exemplo: modalidade lingüística: verbal/numérica, gráfico/simbólica, pictórica ou na combinação destas. As fases do ato mental são: Input => Elaboração => Output – ligadas e relacionadas entre si.

 O desenvolvimento do ato mental gera a necessidade de operações mentais, das quais podemos destacar: relativamente simples (reconhecer, identificar, comparar), ou complexas (pensamento analógico, transitivo, lógico ou inferencial).

De acordo com Feuerstein, 1980, as operações mentais são definidas como “o conjunto de ações interiorizadas, organizadas e coordenadas, na função das quais levamos a cabo a elaboração da informação que recebemos”. Ainda segundo Feuerstein, as operações mentais são: Identificação (capacidade de atribuir um significado a um acontecimento ou situação), Evocação ( capacidade de recorrer a uma experiência prévia), Comparação (habilidade de contrastar dois ou mais elementos estabelecendo semelhanças e diferenças), Análise (habilidade de decompor um todo em seus elementos constitutivos), Síntese (habilidade para integrar a um conjunto os elementos de um todo), Classificação (habilidade de agrupar elementos em classes e subclasses de acordo com um ou mais critérios), Hierarquização (habilidade de ordenar elementos de acordo com um ou mais critérios), Codificação (habilidade para representar simbolicamente certos significados), Decodificação (habilidade de traduzir significantes em seus significados correspondentes), Projeção de Relações Virtuais (capacidade de estabelecer relações mentais entre elementos), Diferenciação (capacidade para identificar sinais que distingam um elemento de outro), Representação Mental (capacidade de utilizar significantes para evocar mentalmente a realidade), Transformação Mental (habilidade para modificar mentalmente as características de um objeto), Raciocínio Divergente (habilidade para modificar mentalmente as características de um objeto), Raciocínio Hipotético (capacidade para ensaiar mentalmente diversas opções de interpretação e resolução de um problema), Raciocínio Transitivo (capacidade para estabelecer relações transitivas a nível mental, considerando a relação de um elemento com respeito ao elemento antecessor ou sucessor), Raciocínio Analógico (capacidade de estabelecer relações de semelhança entre elementos) e Raciocínio Inferencial (habilidade para predizer ou gerenciar o comportamento de atos ou fenômenos a partir de situações ou experiências particulares).

Ou seja, mesmo que apresentado de forma completamente sintética e direcionada, o pensamento deste teórico pode se constituir num caminho interessante na estruturação de áreas de Inteligência Competitiva. A teoria da Modificabilidade Cognitiva Estrutural pois a IC numa empresa visa a transformação de informações dispersas em Produtos de Conhecimento, relevantes para a empresa. O ciclo clássico de IC é:

1. Identificação das necessidades de informação

2. Coleta e Tratamento das informações

3. Análise das informações

4. Disseminação

5. Avaliação

Quanto mais habilidades mentais a área de IC como um todo possuir, e porque não a empresa, mais confiáveis e críticos serão os produtos correlatos. Exemplo: um “Modelo de Projeto de Inteligência Competitiva – MPIC” – são definidos alguns aspectos do projeto, tais como:

responsável; clientes; tipo/foco; pertinência; modus operandi, local de execução; produtos gerados; custos; cronograma para implantação, etc. Ou ainda, auxiliando nas repostas das perguntas levantadas: O que? Por que? Como? Quem? Onde? Quanto? Quando? etc. Quanto mais elevado o nível das operações mentais, mais complexas serão as respostas – “Pensar fora da caixa – ousar”, estes são, na minha singela concepção, os pressupostos básico para uma IC articulada e efetiva.

 

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6 comments

  1. Olá Luis, algumas perguntas:

    Você acha que as empresas tem hoje um perfil mais passivo aceitante ou ativo modificante?

    Em um ambiente ativo modificante, a competição torna-se maior, podendo gerar estresse na equipe e deixar o ambiente,digamos, doente. Como então, deixar o ambiente ativo modificante e saudável para a equipe?

    Quais os tipos de empresa se apresentam ativo modificante? Seriam as empresas de tecnologia e start-ups?

    • Luis Paulo

      Boa tarde Janaina,

      Não tenho dúvidas em afirmar que atualmente a maioria das empresas possuem um perfil passivo aceitante, as pessoas no geral preferem ficar à margem, na zona de conforto. Se bem que este perfil depende muito do nível hierárquico que ocupam. Nos mais altos, tendem a estimular o ativo modificante, mesmo porque se não agirem desta forma serão solapadas pela concorrência, e nos mais baixos, são passivos aceitantes. Estes ambientes estrapolam as fronteiras da empresa, e modificam a sociedade como um todo. Geram ciclos virtuosos e instáveis – ambientes altamente sinérgicos.
      Realmente concordo contigo quando ao nível de estresse ficar mais elevado. Neste contexto, o trabalho em equipe é o que tornaria o ambiente mais harmônico. Não seria um ambiente ativo modificante se os indivíduos agissem como tal. Ambientes ativos modificantes devem ser ambientes sinérgicos. O pensamento ocorre por redes neurais, quando pensamos em conjunto, o nível de complexidade supera a soma cartesiana dos mesmos.
      No atual nível de competitividade as empresas devem buscar uma revisão geral de suas diretrizes, a destruição criadora. No âmbito de empresas de tecnologia, em especial softwares, a criação de funcionalidades é muito mais dinâmica, são indústrias criativas. É mais difícil inovar em empresas de filtro de café por exemplo, mas estas empresas têm que ficar atentas ao crescimento das máquinas de expresso, pois coloca em risco direto seu principal ramo de atividade. Mas mesmo nestes casos, a equipe pode sugerir inovações em observações do mercado.
      Depende muito dos ramo de atividade, mas incentivar ambientes ativos modificantes é um desafio para os gestores. A empresa só tem a ganhar.

  2. Vanessa Alkmim

    Como sempre, seu texto é muito enriquecedor… Parabéns! :)

    • Luis Paulo

      Obrigado Vanessa. É importante e vital compartilhar o conhecimento… Só assim caminharemos mais firmes e fortes enquanto humanidade.

  3. Obrigado Luis pela resposta. Percebo ainda que as empresas tem muito à caminhar. Não só as empresas, como também as pessoas. Somos impregnados pela competitividade agressiva, que devemos ser sempre melhores que os outros, tomando até atitudes não muito éticas para crescer dentro de uma empresa. Entendo que, dentro dos conceitos que mostrou, a sociedade deve caminhar para trabalhos em redes colaborativas – conceito muito usado no mundo virtual, mas pouco difundido no mundo real.

    Realmente seria muito mais enriquecedor para todos.

    • Luis Paulo

      Realmente Janaina. A ética é fundamental na minha visão. Não podemos exagerar na agressividade. Um pouco de ambição não faz mal à ninguém, mas sempre com parcimônia. No que tenho percebido, as empresas preferem perfis profissionais colaborativos, profissionais que desenvolvam relações estáveis, persistentes e perseverantes. Sem dúvida as redes colaborativas criam ambientes ativos modificantes.