Tempos modernos: terceirização da vida, mudanças de comportamento e de consumo

Você já parou para pensar em quanto da sua vida você terceiriza?

Lava o carro no lava-rápido, vai ao cabeleireiro, manicure, compra comida no I-Food, compra roupas prontas, se tem condições, contrata alguém para limpar a casa, arrumar o jardim e cuidar das crianças. Não, não é uma crítica. É uma realidade das grandes cidades onde trabalhamos muito, perdemos muito tempo no tráfego, e há pouco tempo para dedicar a coisas simples. Mas, vamos observar mais de perto as mudanças de comportamento ao longo do século XX.

No início do século XX, a divisão de tarefas era uma necessidade para a sobrevivência das famílias em áreas rurais brasileiras. Levantar cedo, alguém tratava das galinhas, outra pessoa da criação de porcos, alguém ordenhava a vaca, alguém pegava a lenha para o fogão. A quantidade de tarefas a serem realizadas ao longo de um dia eram muitas, do nascer ao pôr do sol, tudo estava por fazer e dava muito trabalho.

Cortar lenha, matar o porco, defumar a carne, derreter a gordura na lata para conservação da carne. A roupa lavada no rio, ou no tacho. Fazer melaço e rapadura, temperar a carne para encher as tripas e fazer linguiça, preparar o queijo, colher, descascar e ralar o milho para a pamonha. Costurar as roupas, remendar as meias, engomar os lençóis, raspar o fumo para pitar o cigarro de palha.

Em 1901¹ éramos 17,4 milhões de brasileiros. Em 1940, 69% da população era rural. Em 1960, 61% dos domicílios tinham fogão a lenha e 18% fogão a gás. Em 1970, 80% dos domicílios em área rural ainda tinha fogão a lenha. Em 1940², 42,9% dos brasileiros tinham entre 0 e 14 anos, 32,6% da população estava ocupada com a agricultura.

O tempo passou, tornamo-nos urbanos. Em 2018, cerca de 80% da população era urbana. Mudamos nossos hábitos e atividades e lazer e fomos, devagar, terceirizando as atividades essenciais: cozinhamos menos, comemos fora ou pedimos pelo aplicativo, gastamos ¼ do que ganhamos com isso³; não limpamos (quando é possível pagar), temos empregadas domésticas ou empresas de limpeza; a maioria de nós não produz nenhum alimento, nem uma simples hortinha, nos abastecemos em mercados e sacolões; não fiamos nem costuramos, nossas roupas são compradas prontas, baratas e descartáveis; nem sequer precisamos lavar, podemos comprar pratos e talheres descartáveis (embora não seja lá muito ecológico).

Temos tempo, muito tempo disponível. Pequenas e médias empresas empregam a maior parte dos 14,2% das pessoas que trabalham na indústria, a área agropecuária emprega 10,4%, e a área de serviços emprega 67,7% da população ocupada4, trabalhamos “apenas” de 40 a 44 h por semana. Hoje gastamos cerca de 6 a 8 horas por dia trabalhando, 4 horas na escola, de 2 a 3 horas no trajeto entre uma coisa e outra.

E o que fazemos com nosso tempo livre?

Ficamos entre 2,5 a 3 horas usando nossos celulares5 e cerca de 9 horas e 14 minutos navegando na Internet6. 44% da população brasileira não lê e 30% nunca comprou um livro.

Todas essas informações para sugerirmos uma reflexão: tornamo-nos inúteis?

Observo as pessoas à minha volta, a maioria não gosta do trabalho que faz ou está cansado. Crianças desejam não ir à escola todos os dias, em geral porque a escola é muito entediante, arcaica, e nunca propõe nada desafiador. Os alunos de ensino superior, pelo menos metade deles, não faz ideia de porque escolheu o curso que escolheu, são capazes de atravessar um semestre inteiro sem ler nenhum livro, ou sequer acessar os materiais disponibilizados pelos professores. Porque estamos assim?

O que fazemos com nosso tempo livre?7

Pesquisa do Instituto ACNielsen em 2016 indica que, no seu tempo livre, 37% das pessoas prefere assistir televisão, 33% ouvir música, 31% ler, 22% passar tempo com família e amigos e, na sequência, em menores proporções: viajar, comer, cozinhar, jogar, e outras atividades. Em um artigo da Revista Você SA8, Bárbara Nór entrevistou Jake Knapp e John Zeratsky, exatamente sobre como ter mais tempo livre e o que fazer com ele. Os autores citam a necessidade de dizer não mais vezes, de reduzir o tempo navegando nas redes sociais, como estratégia para ter mais tempo livre.

Por outro lado, o que fazer com ele (o tempo livre)?

No artigo citado, os autores falam do que chamam de piscinas infinitas (TV, redes sociais e internet) que nos distraem, inclusive não permitindo que o tempo livre seja benéfico no sentido da contemplação, do descanso e da criatividade. O autor destaca que “Não sei se já soubemos o que fazer com tempo livre e tédio. Mas, no passado, se ficávamos entediados porque não tínhamos estímulos ou distrações, isso não era uma escolha, era apenas algo que acontecia”. Hoje, em prol da produtividade, nos assolamos com múltiplas atividades.

Por um lado, evitamos o tédio e a falta do que fazer a todo custo mas, o ócio, o tempo livre é fundamental para a criatividade, para alimentar a alma de arte, cultura e lazer. De acordo com De Masi, o ser humano passa três vezes mais tempo “não fazendo nada” do que executando funções profissionais, é preciso saber aproveitar esses momentos de maneira criativa e prazerosa.

Em geral, embotamos nossos pensamentos e sensações em apps, jogos, filmes, vídeos, lives e outras coisas que, na sua grande maioria, nada nos acrescentam. Proliferam influencers que pouco acrescentam de conteúdo relevante, embora existam fantásticas exceções.

Em 25 de outubro de 2018, Ricardo Feltrin destacou os programas mais comentados nas redes sociais em cada emissora de canal aberto: Globo/Segundo Sol; Record/Jesus; SBT/As aventuras de Poliana; Band/Masterchef; Rede Tv/Encrenca – novelas e reality shows, é disso que as pessoas falavam. No Youtube9, as categorias mais assistidas, segundo ranking da MediK9 em outubro de 2017, na ordem: vídeos de review de produtos, vídeos de como fazer, vlogs e vídeo games. A Revista Época Negócios10 publicou em 07 de dezembro de 2018, o ranking dos vídeos mais assistidos em 2018, no Brasil, o grande campeão de audiência foi Whindersson Nunes com o vídeo “Supermercado (mais de 14,3 milhões de visualizações) e depois aparece “O Aventureiro Azul”, do canal Luccas Neto.

Ao observar constantemente as mudanças no comportamento do consumidor e do cidadão comum, nós, em nosso cotidiano, fica o convite para a reflexão sobre este paradoxo moderno: terceirizamos intensamente nossas atividades cotidianas para nos entregarmos ao mundo do trabalho, que nos tornamos insustentáveis e dependentes, não plantamos e nem colhemos, não tecemos e nem costuramos, tudo precisa vir do outro, o que alimenta a economia mas esvazia nossa autonomia. E ao mesmo tempo, ao sentirmo-nos inúteis, sem propósito, entediados, mergulhamos em atividades que nada contribuem com nosso próprio desenvolvimento pessoal.

E nesta necessidade de dar utilidade a tudo e a todos, descartamos momentos, pessoas e conhecimentos. Acreditamos inúteis a arte, a filosofia, a sociologia, os livros e o aprender. Terceirizamos nossas atividades e entregamos nossa autonomia de seres capazes de sobreviver sozinhos e, com isso, encontramo-nos, muitas vezes, destituídos de função e utilidade. Nossa experiência de estar vivos, o despertar de sentimentos e emoções que mantém o vigor da vida, são também terceirizados, digitalizados, e o que nos resta?

Dizem que todos procuramos um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é a experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior do nosso ser e da nossa realidade mais íntima, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos (Campbel, 1990)11  

Fontes:
¹Dados IBGE. Disponíveis em https://ww2.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/29092003estatisticasecxxhtml.shtm acesso em abril de 2019.
²A evolução do Brasil entre 1940 e 2000. Disponível aqui. https://inverta.org/jornal/edicaoimpressa/413/economia/censos acesso em abril de 2019.
³Segundo pesquisa, 34% dos brasileiros gastam com alimentação fora do lar. Revista Exame. Disponível em https://exame.abril.com.br/negocios/dino/segundo-pesquisa-34-dos-brasileiros-gastam-com-alimentacao-fora-do-lar-shtml/
4Setor de serviços é o que mais emprega no Brasil. http://www.sescapldr.com.br/imprensa/noticia/novidades/17-1-2017/setor-de-servicos-e-o-que-mais-emprega-no-brasil–segundo-o-ibge
5Brasileiros estão cada vez mais viciados no celular. Revista Exame. Disponível em https://exame.abril.com.br/tecnologia/brasileiros-estao-cada-vez-mais-viciados-no-celular/
6Brasileiro é um dos campeões em tempo conectado na internet. Disponível em https://g1.globo.com/especial-publicitario/em-movimento/noticia/2018/10/22/brasileiro-e-um-dos-campeoes-em-tempo-conectado-na-internet.ghtml
7O que você faz com seu tempo livre? Pesquisa Nielsen 2016 disponível em https://www.nielsen.com/br/pt/insights/news/2016/O-que-voce-faz-no-seu-tempo-livre.html acesso em maio de 2019;
8Nór, Bárbara. Autores contam o segredo para ter mais tempo livre – sem desperdícios. Revista Você SA. 08 de maio de 2019. Disponível em https://exame.abril.com.br/carreira/autores-contam-o-segredo-para-ter-mais-tempo-livre-sem-desperdicios/
9Projetual.com.br Youtube: quais são as categorias de vídeos mais acessadas e como posicionar sua marca. Disponível em https://projetual.com.br/quais-sao-as-categorias-de-videos-mais-vistos-no-youtube/ acesso em maio de 2019.
10Época negócios online. Os vídeos mais assistidos no Youtube em 2018/Brasil. Disponível em https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/12/os-videos-mais-assistidos-no-youtube-em-2018.html acesso em maio de 2019.
11Campbel apud Miguel, Leonardo Rogério. Conservar e amar o básico: um relato sobre a “inutilidade” fundamental da universidade. Disponível em file:///C:/Users/ITAUTEC/Downloads/31843-105088-2-PB.pdf acesso em maio de 2019.

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